Você certamente não sabe, mas mora em uma cidade chamada Caldé. É a cidade por trás da cidade em que você mora. Como a filosofia, que dá base para as ciências, todos os vilarejos, povoados e metrópoles estão construídos em cima de Caldé. Só há um grande problema. Caldé não foi descoberta.
Na verdade foi. Pelos poucos que já assistiram à montagem Caldé e os Peixes que Aprenderam a Nadar no Ar, com o grupo Tubos de Ensaio dirigido por Marcelo Lazzaratto.
O espetáculo é riquíssimo. Trata de um povoado isolado numa montanha qualquer que sabe ter seu fim próximo, já que uma movimentação tectônica ameaça a cidade, que será alagada a qualquer momento. A partir da noção do fim, cada personagem se transforma. Difícil explicá-los porque as nuances são infinitas. A recatada vendedora de flores resolve dizer as verdade nunca ditas. O assessor puxa-saco e cheio de tiques e manias resolve abandoná-las; percebe que consegue viver sem elas. O cientista cientificista ouve os conselhos, pára de questionar Deus, e cancela as mesquinharias que distribuía por aí. O mais realista de todos é a quem ninguém dá ouvidos: o retardado, garoto com doença mental. Diante da iminência de Caldé submergir, ele quer apenas aprender a respirar embaixo d’água.
A relação entre os personagens é muito bem construída pelo grupo, sob supervisão de Lazzaratto. Foram os atores coletivamente que criaram Caldé, com base nas obras de Dario Fo, Fellini e Modigliani. Isso dá ainda mais qualidade ao espetáculo, com momentos técnicos fabulosos. Os atores congelam as cenas para dar ênfase à determinada fala, estão milimetricamente integrados quando há movimentos conjuntos e a fé cênica é tão presente que nos sentimos realmente em Caldé.
Bem, na verdade estamos. Ou você nunca resolveu acreditar numa mentirinha para viver melhor? Não reparou que a herança que deixamos não são só bens materiais? Ou que, mesmo após uma catástrofe na vida, tudo se ajeita, o fluxo continua, as coisas não mudam tanto assim?
Descubra Caldé. Porque Caldé está dentro de você